Comentando o livro "Mulher pode ser Pastora?" Material do livro para vídeos

1 - Capítulo 1



2 - Capítulo 2



3 - Capítulo 3 - A participação da mulher na redenção


Isso não quer dizer que homem e mulher não sejam diferentes; estamos, porém, sob a mesma perspectiva; somos reconciliados entre nós e reconciliados com o Criador. Cristo inaugurou uma nova humanidade ao anunciar a chegada do reino de Deus. Para que isso se concretizasse, mulheres foram essenciais.


NASCIDO DE MULHER

É escandaloso que o Filho de Deus, além de encarnar como homem, tenha também nascido de uma mulher.

Ao estudar os pais da igreja, Lucy Peppiatt observa que, embora eles estivessem bem longe de ter uma visão igualitária da mulher, “viram o papel de Maria na história da salvação como teologicamente rico, uma vez que fala sobre nosso relacionamento com Deus e dele conosco”.[ 35 ]

 

TESTEMUNHADO POR MULHERES

Infelizmente, não há espaço para falarmos de tantas mulheres que conheceram Jesus, como a profetisa Ana, Marta, Maria e Joana, só para citar algumas. Uma, porém, vale a pena ser destacada: Maria Madalena.

Por séculos, Maria Madalena foi injustamente tida por prostituta. Os Evangelhos não afirmam isso, dizem que Jesus expulsou demônios dela (Marcos 16:9; Lucas 8:2) e que ela provavelmente tinha posses, pois, como outras mulheres, servia Jesus com seus bens (Lucas 8:3).

Maria é descrita, junto de outras mulheres, como uma testemunha ocular da ressurreição em todos os Evangelhos, anunciando-a aos apóstolos. Parte do papel apostólico consistia em ser uma testemunha da ressurreição (veja Atos 1:22; 2:32) e por isso Maria Madalena é chamada por Tomás de Aquino de “apóstola para os apóstolos”.

É verdade que o testemunho de mulheres foi desacreditado, pois, naquela cultura, mulheres eram vistas como instáveis e não confiáveis.[ 38 ] Os próprios discípulos não creram no anúncio delas, pois “as palavras delas lhes pareciam loucura” (Lucas 24:11). Porém, é maravilhoso o fato de que isso não tenha tido importância para Deus: Jesus escolheu revelar sua ressurreição primeiro às suas discípulas, de forma que sua primeira palavra após a ressurreição foi “Mulher” (João 20:13).


A REDENÇÃO E O SACERDÓCIO

O autor aos Hebreus explica que:

Os sacerdotes entravam regularmente no Lugar Santo do tabernáculo, para exercer o seu ministério. No entanto, somente o sumo sacerdote entrava no Santo dos Santos, apenas uma vez por ano, e nunca sem apresentar o sangue do sacrifício, que ele oferecia por si mesmo e pelos pecados que o povo havia cometido por ignorância (Hebreus 9:6-7).

Essa situação se altera com a vitória de Jesus, que entrou “Não por meio de sangue de bodes e novilhos, mas pelo seu próprio sangue [...] no Santo dos Santos, de uma vez por todas, e obteve eterna redenção” (v. 12). Agora, todo crente pode “entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus, por um novo e vivo caminho que ele nos abriu por meio do véu, isto é, do seu corpo” (10:19-20).

Unido à videira verdadeira, todo crente é também um sacerdote.

Apocalipse nos lembra de que Jesus “nos constituiu reino e sacerdotes para servir a seu Deus e Pai” (1:6).

 Sobre o sacerdócio geral, Lutero explica que, “em caso de necessidade, cada um pode batizar e absolver, o que não seria possível se não fôssemos sacerdotes”,[ 39 ] e que “quem saiu do Batismo pode gloriar-se de já estar ordenado sacerdote, bispo e papa”.

 Sim, está correto dizer que Deus fez de suas filhas sacerdotisas, e isso está diretamente ligado à missão para a qual Jesus nos envia.


A MISSÃO

Finalmente, quando Jesus foi elevado aos céus, ele deixou uma clara missão: “Mas receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra” (Atos 1:8). Não apenas os homens, mas também as mulheres receberam poder para testemunhar a descida do Espírito Santo à casa em que elas e eles estavam reunidos por ocasião do Pentecostes (2:4). Isso cumpriu a profecia de Joel: “Os seus filhos e as suas filhas profetizarão” (Joel 2:17)!


PARTE 2: A MULHER NO MINISTÉRIO

Capítulo 4 A mulher e o profetismo


No Antigo Testamento, encontramos profetisas como Miriam, Débora e Hulda. Suas histórias mostram como Deus, em sua infinita sabedoria, escolhe também mulheres para papéis de liderança, mesmo em mundo com estruturas sociais diferentes das nossas. As três exerceram autoridade espiritual e religiosa sobre o povo — isto é, também sobre homens.

...profeta é não apenas quem prevê o futuro, mas sobretudo aquele que fala em nome de Deus.

A palavra proferida pelo profeta é autoritativa, pois provém do próprio Deus; por isso vemos profetas repreendendo reis e sumos sacerdotes.


MIRIÃ

Miriã é a primeira mulher a ser identificada como profetisa, sendo citada por ocasião da travessia do mar Vermelho: “Então Miriã, a profetisa, irmã de Arão, pegou um tamborim e todas as mulheres a seguiram, tocando tamborins e dançando” (Êxodo 15:20).

 Miriã faz parte do grupo pré-monárquico de pessoas que foram chamadas de profetas, como Abraão (Gênesis 20:7) e Moisés (Deuteronômio 34:10).

É bastante provável que ela exercesse certa liderança, visto que conduziu todas as mulheres do povo na dança e no canto. A revolta de Miriã e Arão contra Moisés indica de modo sutil esse possível papel: “‘Será que o Senhor tem falado apenas por meio de Moisés?’ [...] ‘Também não tem ele falado por meio de nós?’” (Números 12:2). Se Deus não falasse também por meio dela, como Miriã poderia fazer essa reivindicação ao lado de seu irmão, que era sumo sacerdote? Quando ela ficou isolada por conta da lepra, que veio sobre ela como castigo de Deus, o povo não avança até que ela retorne (v. 15), o que mostra amplamente sua importância. Sua morte é chorada como a de outros líderes (20:1).

 No livro de Miqueias, o Senhor menciona Miriã liderando o povo ao lado dos irmãos: “Meu povo, o que fiz contra você? Fui muito exigente? Responda-me. Eu o tirei do Egito, e o redimi da terra da escravidão; enviei Moisés, Arão e Miriã para conduzi lo” (Miqueias 6:3-4).


DÉBORA


Débora, talvez, seja a líder mais proeminente do Antigo Testamento e, por isso mesmo, se tornou uma pedra no sapato de algumas teologias. Sobre ela recai um carisma duplo: é juíza e profetisa. Os juízes eram levantados pelo Senhor para libertar o povo “das mãos daqueles que os atacavam” (Juízes 2:16).

Ela é mencionada pela primeira vez em Juízes 4, quando o povo de Deus era oprimido: “Os israelitas clamaram ao Senhor, porque Jabim, que tinha novecentos carros de ferro, os havia oprimido cruelmente durante vinte anos. Débora, uma profetisa, mulher de Lapidote, liderava Israel naquela época” (v. 3-4).

A palavra shaphat, que significa julgar, liderar, é a mesma utilizada com relação a Samuel: “E Samuel julgou a Israel todos os dias da sua vida” (1Samuel 7:15, ACF). Ela aparece também quando o povo pede a Samuel um rei: 

 Isso implica que Débora, como os demais juízes, liderava o povo e era responsável por tomar decisões: “Ela se sentava debaixo da tamareira de Débora, entre Ramá e Betel, nos montes de Efraim, e os israelitas a procuravam, para que ela decidisse as suas questões” (Juízes 4:5).

Teólogos contrários à liderança feminina não têm conseguido encaixar Débora em suas sistematizações.


Por isso, ideias mirabolantes têm surgido a respeito de sua atuação. Vejamos algumas, e as respostas a elas.


1. “Débora, como liderança feminina, era um sinal do juízo de Deus.” 

Se isso fosse verdade, teríamos uma contradição com o texto bíblico, que, conforme explicitado acima, nos apresenta a dominação dos outros povos sobre Israel como juízo de Deus (Juízes 2:15) e o levantar de juízes para libertá-los como misericórdia divina (v. 18). Assim, o liderar de Débora faz parte da misericórdia de Deus. Como nos diz o cântico: “Restavam poucos nos povoados de Israel, até que Débora se levantou como mãe para Israel” (5:7, NVT).


2. “Débora era uma líder apenas civil, não religiosa.” 

Tal separação nem sequer existia naquela época; os governantes “civis” também eram governantes religiosos.


3. “Deus levantou Débora porque não havia homens disponíveis.”

 Será? Deus chamou Gideão, que estava escondendo trigo (Juízes 6). Ele preparou o nascimento de Sansão já no ventre (Juízes 13). Fez soprar um forte vento sobre o mar quando Jonas fugiu (Jonas 1:3-4). Disponibilidade não é, exatamente, um requisito para o Senhor. Deus poderia ter levantado apenas Baraque, chamando-o, como fez com Gideão.

Quando Débora convocou Baraque, ela lhe assegurou que Deus entregaria os inimigos nas mãos dele na batalha (Juízes 4:7). Baraque, no entanto, pede que ela vá com ele (v. 8). É muito provável que o guerreiro acreditasse que a presença de Débora, como porta-voz de Deus, faria diferença na luta. Embora Débora acate o pedido, ela o repreende por essa atitude (Juízes 4:9), que, em geral, demonstra falta de confiança na palavra do Senhor.


4. “Débora apresenta uma situação não ideal em Israel, pois ‘não havia rei em Israel; cada um fazia o que lhe parecia certo’” (Juízes 21:25).

De fato, todos os juízes são levantados para salvar o povo, que estava sob castigo causado por seu pecado. Contudo, conforme já discorrido, a liderança de Débora está relacionada à misericórdia de Deus.

Samuel adverte veementemente o povo acerca dessa escolha. Deus transforma o mal em bem, estabelecendo Davi como rei ungido, que apontaria para o Messias Jesus. No entanto, a história da monarquia é banhada em derramamento de sangue, intrigas e idolatria.


5. “Baraque é citado na galeria dos heróis da fé no livro de Hebreus, mas Débora não, o que mostra que Deus não aprovava sua liderança.”

Essa afirmação não faz sentido, por tudo que já vimos sobre Débora.


 HULDA

O protagonismo do profetismo, de fato, cresce nessa nova etapa da história de Israel.[ 51 ] Encontramos a história de Hulda em 2Reis 22:8-10 e 2Crônicas 34:14-28, em meio ao reinado de Josias.

Quando Josias ouviu palavras do Livro, rasgou as próprias roupas, pois viu que seus antepassados não cumpriram o que ali havia sido dito. Em seguida, constituiu uma comitiva com a seguinte instrução: “Vão consultar o Senhor por mim, pelo povo e por todo o Judá acerca do que está escrito neste livro que foi encontrado” (2Reis 22:13).

 Aquela comitiva, formada por importantes homens, foi ao bairro novo de Jerusalém para encontrar a profetisa Hulda, “mulher de Salum, filho de Ticvá e neto de Harás, responsável pelo guarda-roupa do templo” (v. 14). Ela lhes entregou a palavra de juízo do Senhor (v. 15-20), e o texto bíblico diz que os homens da comitiva “levaram a resposta ao rei” (v. 20). Linda Belleville salienta:

Embora houvesse outros profetas de prestígio ao redor (por exemplo, Jeremias, Sofonias, Naum e Habacuque), foi o conselho de Hulda a respeito do Livro da Lei que o rei Josias buscou (2Reis 22:11-14). A grande e proeminente delegação enviada a ela [...] diz algo sobre sua importância. A confiança deles estava bem depositada, pois foi o conselho de Hulda que inspirou as conhecidas reformas religiosas do século 7 a. C.[ 52 ]


LEVANDO A PALAVRA E LIDERANDO

Para o mundo protestante, o ofício pastoral está diretamente ligado à pregação da palavra. Em algumas tradições, somente o ministro ordenado pode pregar quando o povo cristão se reúne. John Stott explica que, de maneira correta, “podemos esperar ouvir a voz do próprio Deus” na pregação, e essa voz “exige uma resposta de obediência”.[ 54 ]

No Novo Testamento, mulheres continuaram profetizando (falando em nome de Deus), até mesmo em reuniões de cristãos, como nos apontam passagens que serão estudadas no próximo capítulo. Pensando nos dias de hoje, acaso a Bíblia perde autoridade como palavra de Deus quando pregada por mulheres?



Capítulo 5 - Mulheres diaconisas, missionárias e apóstolas


Para o Mestre, líder é aquele que serve, termo que vem do verbo grego diakoneó, do qual deriva a palavra “diaconia”. Em muitas passagens da Bíblia, a palavra grega diakonia é traduzida por “ministério”. Entende-se assim que o ministério é uma forma de serviço.

O que seria então, para o Novo Testamento, um ministro? A discussão sobre cargos ministeriais permanece nebulosa ao longo de Atos e das epístolas.

Não é à toa que “Paulo exorta todos os membros das diferentes comunidades a admoestar, julgar e confortar”.[ 56 ] Lideranças existiam, mas toda a comunidade era convocada a atuar, conforme os dons distribuídos.

Mas a concepção ministerial de Paulo não para por aí. Ele também reconhecia ministérios mais específicos, como aqueles apontados aos efésios: “E ele designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado” (4:11 12).

Tendo em mente que mulheres exerceram o ofício profético desde o Antigo Testamento, que isso continuou no Novo e que os profetas foram importantes líderes na igreja primitiva, podemos concluir que as mulheres eram parte daquela liderança.


MINISTRAS EM ROMANOS 16

Romanos 16 é uma boa fonte de outros ofícios praticados por mulheres.

 O capítulo 16 inicia com a recomendação a Febe, que carrega a carta de Paulo aos Romanos. A pessoa que portava uma carta também era responsável por lê-la e explicar trechos incompreendidos. Devido a isso, talvez Febe tenha sido a primeira intérprete de Romanos!

Recomendo-lhes nossa irmã Febe, serva [diakonon] da igreja em Cencreia. Peço que a recebam no Senhor, de maneira digna dos santos, e lhe prestem a ajuda de que venha a necessitar; pois tem sido de grande auxílio [prostatis] para muita gente, inclusive para mim (Romanos 16:1-2).

O termo prostatis pode ser traduzido por “protetora, benfeitora ou patrona”.

É possível que Febe hospedasse muitos cristãos ou até mesmo que uma igreja se reunisse em seu lar. Ela não era um caso isolado, pois há registro de outras mulheres benfeitoras na mesma época.[ 65 ]

Diakonon deriva de diakoneo, que vimos anteriormente. Embora diversas traduções brasileiras apresentem Febe como serva da igreja em Cencreia, o termo original pode ser traduzido por “diácono” ou “ministro”, podendo se referir a ambos os gêneros — desse modo, Febe seria “diácono da igreja em Cencreia”, ainda que traduções brasileiras optem por “diaconisa” para harmonizar com nossa língua.

Possivelmente Febe era líder em sua comunidade, o que era comum para os chefes das casas

Epafras é “amado cooperador, fiel ministro [diakonos] de Cristo para conosco”, que ensinou “a graça de Deus em toda a sua verdade” (Colossenses 1:6-7); Tíquico, o portador da carta aos Colossenses, foi “um irmão amado, ministro [diakonos] fiel e cooperador no serviço do Senhor” (4:7).

Embora a tradução serva seja uma possibilidade, no caso dela, parece se referir a um ofício especial, e não a uma qualidade genérica.

De qualquer forma, ainda era cedo para falar de diaconato feminino nos termos pelos quais foi entendido em 1Timóteo 3 e na história da igreja. A diaconia feminina foi reconhecida por pais da igreja como Orígenes, Clemente de Alexandria e João Crisóstomo.


PRISCILA

Talvez Priscila seja minha personagem feminina preferida do Novo Testamento: mestre, evangelista e plantadora de igrejas! Nas saudações de Romanos, Priscila e seu marido, Áquila, são citados nas saudações do apóstolo: “Saúdem Priscila e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus. Arriscaram a vida por  mim. Sou grato a eles; não apenas eu, mas todas as igrejas dos gentios. Saúdem também a igreja que se reúne na casa deles”

São chamados pelo apóstolo de “colaboradores” (synergous), o termo que Paulo utiliza em referência aos seus cooperadores no trabalho missionário, como Timóteo, Filemom, Marcos, Lucas e Tito (Romanos 16:21; 2Coríntios 8:23; Filemom 1:1,24).[ 70 ] Paulo agradece-lhes por terem arriscado a vida por ele.

bastante surpreendente que, em quatro passagens, o nome de Priscila venha antes que o do marido — uma redação muito incomum em uma sociedade patriarcal como a greco-romana. Algumas hipóteses são levantadas a esse respeito: talvez Priscila fosse a mais proeminente dos dois, tivesse um status social mais elevado,[ 72 ] ou se destacasse no ministério. O fato de seu nome aparecer antes do nome do marido incomodou tanto um copista do século 6 que ele fez questão de corrigir a ordem em Atos 18:16, colocando o nome de Áquila na frente, e omitindo o nome de Priscila em outros versículos.[ 73 ] O apagamento de mulheres da Bíblia não é algo novo, e a presença delas no ministério do Novo Testamento incomoda cristãos até hoje.

O nome de Priscila também aparece antes do nome do cônjuge em Atos 18:24-26. Enquanto a família vivia em Éfeso, um judeu culto chamado Apolo apareceu na cidade, ensinando fervorosamente sobre Jesus e falando corajosamente na sinagoga. Ele, porém, só conhecia o batismo de João. Por isso, “Quando Priscila e Áquila o ouviram, convidaram-no para ir à sua casa e lhe explicaram (exethento) com mais exatidão o caminho de Deus” (v. 26). Nesse contexto, o nome de Priscila é mencionado primeiro, uma sugestão de que ela “possuía as habilidades dominantes de ministério e liderança da dupla”[ 74 ] e de que tenha sido a principal mestre de Apolo.[ 75 ]

Embora seja um episódio claro em que uma mulher tenha ensinado um homem, alguns dizem que Priscila não o ensinou e que a frase “explicaram com mais exatidão” seria uma espécie de conversa informal com biscoitos e chá. Porém, o mesmo verbo é aplicado a Paulo em um dia de ensino em Roma: “Desde a manhã até à tarde ele lhes deu explicações (exetitheto) e lhes testemunhou do reino de Deus” (28:23). Da mesma forma, é provável que Apolo tenha sido ensinado por Priscila e Áquila durante algum tempo.


JÚNIA

Outra importante saudação de Paulo é a seguinte: “Saúdem Andrônico e Júnias, meus parentes que estiveram na prisão comigo. São notáveis entre os apóstolos, e estavam em Cristo antes de mim” (Romanos 16:7).

Um debate recente foi levantado a respeito do nome “Júnias”. Seria masculino ou feminino? No grego, o nome presumidamente feminino Júnia e o nome definitivamente masculino Júnias são quase idênticos no caso acusativo.

 Essa compreensão ocorreu graças à ideia de que o nome seria uma contração de “Junianus”. A questão é que “o nome masculino Júnias não foi encontrado em nenhuma inscrição, cabeçalho, fragmento de texto, epitáfio nem obra literária do período do Novo Testamento”.[ 76 ] O feminino “Júnia”, por sua vez, era muitíssimo comum na época: mais de 250 inscrições com “Júnia” foram encontradas na Roma Antiga.[ 77 ] Os pais da igreja, como Orígenes, Crisóstomo, Jerônimo, João Damasceno e outros, entendiam o nome Júnia claramente como feminino.[ 78 ]A exceção é Epifânio, que também entendia Priscila como um homem, o que torna suas conclusões bastante suspeitas.[ 79 ] Após isso, o primeiro intérprete que compreendeu Júnia como homem é bastante tardio: Gil de Roma (1243-1316), já na Idade Média. Por isso, o amplo consenso acadêmico atual é de que Júnia se trata de um nome feminino.

O mais natural seria entender que Andrônico e Júnia fossem um casal missionário, tal como Priscila e Áquila. O impressionante é que eles são chamados por Paulo de “notáveis entre os apóstolos” (Romanos 16:7)! Duas leituras são possíveis: ou Andrônico e Júnia eram apóstolos notáveis ou eram notáveis para os apóstolos.

James Dunn e uma série de estudiosos concordam com a primeira opção. Sabemos que existiram outros apóstolos além dos Doze, e o casal em questão parece ter cumprido os requisitos apostólicos, pois seguiram Cristo antes de Paulo, talvez até fazendo parte dos quinhentos irmãos que viram Jesus ressuscitado (1Coríntios 15:6).[ 80 ] Além disso, é improvável que “apóstolo” tenha um sentido genérico de “enviado”, já que Paulo não atribuía esse título a qualquer um.


Também chama atenção o fato de que eles “estiveram na prisão” (Romanos 16:7) com Paulo. O teólogo N. T. Wright vê isso como uma possível indicação de liderança. Para ele, “é interessante que, na crucificação, as mulheres puderam ir e ver o que estava acontecendo sem medo das autoridades. Elas não foram consideradas uma ameaça”.[ 83 ] Isso posteriormente mudaria. Em Atos, Saulo solicitou a cooperação das sinagogas de Damasco para prender “todos os seguidores do Caminho, homens e mulheres” (Atos 9:2, NVT), o que só faria sentido se as mulheres também pudessem ser líderes ou exercer influência.[ 84 ] A prova de que essa não é uma leitura “inovadora” é que, para João Crisóstomo, Júnia foi indiscutivelmente uma apóstola:


“Saúdem Andrônico e Júnia [...] que são notáveis entre os apóstolos”: ser apóstolo é algo grandioso. Mas ser notável entre os apóstolos — pense que maravilhoso cântico de louvor é esse! [...] De fato, quão grande deve ter sido a sabedoria dessa mulher para que fosse considerada digna do título de apóstolo.[ 85 ]

 



6 - Capítulo 6 Mulheres pastoras






 

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